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16/08/2007 00:23
Joel, o repórter
O jornalismo brasileiro, que já anda caindo pelas tabelas, ficou mais pobre com a morte de Joel Silveira.
Um dos mais brilhantes repórteres do país, Joel estava meio esquecido nos últimos tempos. A moçada que labuta nas redações e assessorias de comunicação sequer sabe quem foi. Desconhecimento que é uma lástima para quem trabalha com textos jornalísticos.
Joel foi o introdutor no Brasil do chamado jornalismo literário, ou seja, da versão brasileira do new journalism, nome dado pela imprensa americana, no começo dos anos 40 do século passado, a uma forma diferente de narrar histórias em jornais e revistas.
Há pouco mais de 60 anos fez duas reportagens que deixaram a alta sociedade de São Paulo p da vida. Em "Grã-finos em São Paulo", que saiu em 1943 na revista carioca Diretrizes, traçou um perfil debochado da elite paulistana.
Dois anos depois, publicou no Diário da Noite A milésima segunda noite da avenida Paulista, descrevendo o casamento de Filly Matarazzo, filha do conde Francisco Matarazzo Jr. e herdeira do maior parque industrial da América Latina, com o milionário carioca João Lage.
As duas matérias são consideradas os mais importantes textos do jornalismo brasileiro.
Vou reproduzir aqui trechos de um artigo de Romeu Martins, criador do Marca do Diabo, que resume a importância do trabalho de Joel Silveira. Ficou um longo para os padrões deste blog, mas, como resumo do trabalho de Silveira, é interessante.
Foi a serviço de uma publicação carioca, a semanal Diretrizes (dirigida por outra sumidade do jornalismo nacional, Samuel Wainer), que Silveira desembarcou em São Paulo, onde, durante uma semana, levantou a história dos ricaços locais. Uma história de sobrenomes (Penteado, Matarazzo, Crespi, Lafer, Pignatari) e como essas citações de "Grã-Finos em São Paulo" comprovam:
"D. Odete casou-se com um homem muito rico. O que é mais, tem um sobrenome [Matarazzo], e os sobrenomes, quatro ou cinco deles, são donos de São Paulo"; "Por trás dos sobrenomes, há um mundo incrível: centenas de fábricas, milhares de chaminés, milhares de motores, milhares de operários. Era um grupo terrível, avassalador. Com um gesto de mão, qualquer um deles poderia me aniquilar, me tanger longe, lá na rua". O estilo de Joel Silveira era aquilo que poderíamos chamar de iconoclasta, ou, como ele deve preferir, desaforado.
Tem muito mais na longa reportagem que foi capa da edição nº 178, de 25 de novembro de 1943, de Diretrizes. Ao longo do texto, o autor fez pouco caso dos dotes intelectuais dos grã-finos, descreveu as futilidades de suas festas e dos motivos de suas rusgas, deu uma mostra de como era a crônica social vigente e ainda classificou os ricaços paulistanos em três castas principais.
A primeira seria formada pelos quatrocentões (que logo serão chamados de quê? Quinhentões?). "São criaturas repletas de antepassados, aqueles senhores heróicos e sem muitos escrúpulos que rasgaram as matas de São Paulo, vadearam os rios, descobriram as montanhas e fizeram as primeiras cidades".
A segunda casta Silveira chamou de "grupo reserva", formada pelos descendentes dos italianos que enriqueceram na cidade. "O dinheiro é a grande arma do segundo grupo: arma que dá qualidade ao trabalho dos esforçados italianos, que lhes credencia na sociedade, que lhes abre, e às suas cintilantes esposas, as inacessíveis portas dos solares de Piratininga".
"Estribo" e "Penacho" são os nomes que o repórter deu aos representantes do terceiro tipo de grã-fino, "um grupo lamentável e melancólico" de gente que não era de fato milionária, mas que fazia de tudo para aparentar que sim. "Os homens se dependuram na vida mundana de São Paulo como se estivessem num bonde cheio. As mulheres usam terríveis penachos, porque acreditam ser isto a característica principal da grã-fina, como o dente de ouro é característico em todo turco". Nem é preciso dizer que a matéria causou escândalo na época...
"A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista", talvez a mais famosa reportagem já feita no país, basicamente é a cobertura de uma festa para a qual o autor, desafeto de toda a alta sociedade de São Paulo, não foi convidado.
Bem menor que sua antecessora, a matéria sobre as bodas de Filly Matarazzo com o milionário e ex-pracinha João Lage, saiu nas páginas do jornal Diário da Noite com uma dose de sarcasmo ainda maior que "Grã-Finos em São Paulo".
A tal festança na verdade foi um coletivo de comemorações. Segundo levantamento do repórter, foram "26 jantares em residências particulares; oito recepções, 16 ceias no Jequiti e sete no Roof, não falando de uma série de pequenos incidentes mundanos: coquetéis, chás com torradas, encontros formais, coisas assim".
É preciso lembrar que todo esse arsenal de festividades foi montado em uma terra que tinha acabado de enfrentar um racionamento dos brabos, devido à guerra na Europa e aos submarinos alemães que infernizavam o tráfego marítimo internacional, famílias de cinco pessoas tinham direito de levar para casa diariamente um litro de leite e 750 gramas de carne, além de um quilo de açúcar por quinzena (um outro jornalista polêmico daquela época, Edmar Morel, causou uma epidemia de ódio no país ao revelar que uma égua de corrida, chamada Farpa, era alimentada todos os dias com quatro litros de leite adoçados com um quilo de açúcar).
Como contraponto a todo aquele festival de ostentação, Silveira preparou um xeque-mate na reputação dos Matarazzo ao fazer uma cobertura paralela no mesmo texto sobre um segundo casamento que ocorreu por aqueles dias: o do torneiro-mecânico José Todeschi e de Nadir Ramos, operária de uma das fábricas da poderosa família grã-fina.
A comparação entre as duas cerimônias é que torna esse texto um primor da crueldade que uma matéria jornalística pode atingir nas mãos de um expert. A decadência que anos mais tarde atingiu o complexo industrial dos Matarazzo ajudou ainda a tornar aquela reportagem profética (em certo ponto, Dona Olívia, mãe da noiva pobre daquela noite tão famosa, disse a Silveira: "Não sei não, meu senhor, mas acho que o Conde Chiquinho está gastando dinheiro demais"), garantindo que o texto nunca tenha sido considerado datado ou coisa do tipo.
Mas, para além dos fatos, foi o estilo usado por Joel Silveira em seus dois atentados contra a alta burguesia de São Paulo que fez deles textos seminais para a história da reportagem nacional.
enviada por Ronaldo Lenoir
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